Projeto de um Circuito de Medição de Temperatura de Alta Precisão com Termistor e Amplificador Operacional

Tempo de Leitura: 5 minutos

Introdução: por que não ligar o termistor direto no ADC?

Em projetos de sistemas embarcados, é extremamente comum encontrar medições de temperatura feitas conectando um termistor diretamente a um divisor resistivo e lendo o ponto intermediário com um ADC (Conversor Analógico-Digital). Embora essa abordagem funcione em aplicações simples, ela apresenta limitações importantes de precisão, especialmente quando se deseja explorar toda a resolução do ADC, reduzir ruído e garantir repetibilidade.

O problema central é que o termistor não é um sensor linear e, além disso, a variação de tensão gerada pelo divisor costuma ocupar apenas uma pequena fração da tensão de referência do ADC. Isso resulta em:

  • Baixo aproveitamento da resolução do ADC
  • Maior sensibilidade a ruídos
  • Erros significativos devido a offset, tolerância de resistores e variação de alimentação

Para resolver esses problemas, utiliza-se um amplificador operacional configurado como amplificador não inversor com referência, capaz de amplificar e deslocar (offset) o sinal do termistor para ocupar quase todo o range do ADC.


2. Termistor PTC e o divisor resistivo: fundamento físico e elétrico

Um termistor PTC (Positive Temperature Coefficient) é um resistor cuja resistência aumenta com o aumento da temperatura. Esse comportamento físico decorre do aumento da resistividade do material semicondutor com a agitação térmica dos portadores de carga.

Ao conectar o termistor PTC em série com um resistor fixo R1, forma-se um divisor de tensão, cuja saída depende diretamente da temperatura:

\[
V_{in} = V_{DD} \times \frac{R_{PTC}}{R_1 + R_{PTC}}
\]

Onde:

  • \( V_{DD} \) é a tensão de alimentação
  • \( R_{PTC} \) é a resistência do termistor na temperatura atual
  • \( R_1 \) é o resistor fixo do divisor

Essa equação mostra que qualquer variação de temperatura altera \( R_{PTC} \) e, consequentemente, a tensão \( V_{in} \).

No entanto, essa variação costuma ser pequena em termos absolutos, por exemplo, da ordem de centenas de milivolts. É exatamente aqui que entra o amplificador operacional.


3. Amplificador não inversor com referência: amplificação + deslocamento

O circuito utiliza um amplificador operacional em configuração não inversora, mas com um detalhe fundamental: a entrada inversora não está referenciada ao terra, e sim a uma tensão de referência \( V_{ref} \).

A equação completa de transferência do circuito é:

\[
V_o =\left(
V_{DD} \times \frac{R_{PTC}}{R_1 + R_{PTC}}
\right)
\times \left(
\frac{R_3 + R_2}{R_2}
\right)

\left(
V_{ref} \times \frac{R_3}{R_2}
\right)
\]

Cada termo dessa equação tem um papel claro:

  1. Primeiro termo
    Representa a tensão de entrada ( V_{in} ) gerada pelo divisor resistivo com o termistor.
  2. Segundo termo
    É o ganho do amplificador não inversor, definido pelos resistores R2 e R3.
  3. Terceiro termo
    Introduz um offset controlado, permitindo deslocar toda a curva de saída para cima ou para baixo, ajustando perfeitamente o range de saída ao range do ADC.

Esse arranjo é extremamente poderoso porque permite mapear um intervalo específico de temperatura para quase toda a faixa de saída do amplificador, maximizando a precisão.


4. Definição dos objetivos de projeto

Antes de qualquer cálculo, o projeto estabelece metas claras:

  • Temperatura mínima: 0 °C
  • Temperatura máxima: 50 °C
  • Tensão de saída mínima: 50 mV
  • Tensão de saída máxima: 3,25 V
  • Alimentação: 3,3 V (single supply)

Esses valores foram escolhidos para:

  • Evitar saturação do amplificador próximo aos trilhos
  • Aproveitar praticamente todo o range do ADC
  • Garantir operação na região linear do amplificador operacional

5. Cálculo do resistor do divisor R1

Para maximizar a sensibilidade e a linearidade do divisor resistivo, escolhe-se R1 como a média geométrica das resistências do termistor nos extremos de temperatura:

\[
R_1 = \sqrt{R_{PTC}(T_{min}) \times R_{PTC}(T_{max})}
\]

No exemplo do projeto:

  • \( R_{PTC}(0 °C) \)
  • \( R_{PTC}(50 °C) \)

O cálculo resulta em aproximadamente 9,95 kΩ, sendo adotado o valor comercial 10 kΩ.

Esse critério reduz a não linearidade do divisor e melhora a distribuição da variação de tensão ao longo da faixa de temperatura.


6. Cálculo da faixa de tensão de entrada

Com R1 definido, calcula-se a tensão mínima e máxima na entrada do amplificador:

\[
V_{in_{min}} = V_{DD} \times \frac{R_{PTC}(0 °C)}{R_1 + R_{PTC}(0 °C)}
\]

\[
V_{in_{max}} = V_{DD} \times \frac{R_{PTC}(50 °C)}{R_1 + R_{PTC}(50 °C)}
\]

Os valores obtidos foram:

  • \( V_{in_{min}} \approx 1,519 V \)
  • \( V_{in_{max}} \approx 1,773 V \)

Observe que a variação é de apenas 254 mV, reforçando a necessidade de amplificação.


7. Determinação do ganho do amplificador

O ganho ideal necessário é dado por:

\[
G_{ideal} =
\frac{V_{out_{max}} – V_{out_{min}}}
{V_{in_{max}} – V_{in_{min}}}
\]

Substituindo os valores:

\[
G_{ideal} =
\frac{3,25 – 0,05}{1,773 – 1,519}
\approx 12,6 , \frac{V}{V}
\]

Esse ganho é implementado pelo par ( R_2 ) e ( R_3 ):

\[
G = 1 + \frac{R_3}{R_2}
\]

Escolhendo \( R_2 = 1 kΩ \), obtém-se \( R_3 \approx 11,6 kΩ \), sendo adotado o valor comercial 11,5 kΩ, resultando em um ganho real de 12,5 V/V.


8. Cálculo da tensão de referência Vref

Como o ganho real difere levemente do ideal, calcula-se o offset necessário para posicionar corretamente a curva de saída.

Reorganizando a equação de transferência, resolve-se para Vref, obtendo:

\[
V_{ref} \approx 1,646 V
\]

Essa tensão pode ser gerada por:

  • Um DAC interno do microcontrolador
  • Um divisor resistivo bufferizado por um amplificador operacional

O uso de buffer é fundamental para evitar que a impedância do divisor altere o ganho do circuito.


9. Resultados e desempenho do circuito

A simulação apresentada no app note mostra que:

  • A saída varia de aproximadamente 59 mV a 3,239 V
  • A resposta é praticamente linear entre 0 °C e 50 °C
  • A largura de banda do circuito é de 84 kHz, mais que suficiente para medições de temperatura

Esses resultados confirmam que o circuito maximiza a resolução do ADC, reduz erros e melhora significativamente a precisão da medição .


10. Boas práticas de projeto

Algumas recomendações fundamentais extraídas do projeto:

  • Sempre operar o amplificador dentro da região linear especificada em datasheet
  • Evitar resistores de valor muito alto para não degradar ruído e estabilidade
  • Usar capacitores em paralelo com resistores de realimentação para limitar banda e reduzir ruído
  • Bufferizar qualquer referência de tensão externa
  • Verificar offset, corrente de bias e ganho em malha aberta do amplificador

Conclusão

O uso de um amplificador não inversor com referência transforma um simples termistor em um sistema de medição de temperatura de alta precisão, adequado para aplicações profissionais em sistemas embarcados, instrumentação e automação.

Mais do que um circuito, este projeto ensina uma metodologia de engenharia: definir objetivos claros, modelar o sensor, mapear o sinal para o ADC e validar tudo por simulação e análise.

Esse é exatamente o tipo de abordagem que separa um circuito funcional de um circuito robusto e confiável.

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